Dúvidas
Aftas - 12/1999
O que é uma afta?
A afta ou úlcera aftosa recorrente é uma doença
comum, que ocorre em cerca de 20% da população, caracterizada
pelo aparecimento de úlceras dolorosas na mucosa bucal, as
quais podem ser múltiplas ou solitárias.
Quais as características clínicas da afta?
As aftas costumam ser precedidas por ardência e prurido,
bem como pelo surgimento de uma área avermelhada. Nessa área
desenvolve-se a úlcera, recoberta por uma membrana branco-amarelada
e circundada por um halo vermelho. Essas lesões permanecem
cerca de 10 dias e não deixam cicatriz; em geral, o período
de maior desconforto perdura por dois ou três dias.
Todas as aftas são iguais?
Não. Atualmente são reconhecidos três tipos
de aftas, sendo a vulgar ou minor a forma mais prevalente. As outras
formas são mais raras: uma delas é conhecida como
herpetiforme, porque lembra a manifestação do herpes
simplex, apresentando um grande número de pequenas ulcerações
superficiais arredondadas e agrupadas, que também perduram
por cerca de 10 dias; a outra forma é chamada afta major,
que, como o nome indica, produz uma ferida maior (com mais de 1
cm de diâmetro), mais profunda, mais dolorida, mais difícil
de tratar e que permanece semanas ou, às vezes, meses.
Por que as aftas doem tanto?
As aftas são lesões ulceradas: há exposição
do tecido conjuntivo, que é rico em vasos e nervos, o que
provoca dor. Além disso, o quadro pode ser agravado por infecções
causadas por microorganismos do meio bucal.
O que causa a afta?
Não podemos afirmar que exista um agente etiológico
específico. A literatura aponta uma alteração
da resposta imunológica como possível causa primária
em alguns pacientes e secundária em outros. Os ácidos
presentes na alimentação, os pequenos traumas à
mucosa, distúrbios gastrintestinais, o ciclo menstrual e
o estresse emocional agem como fatores desencadeantes.
Qual a relação entre as aftas e a dieta?
Alguns alimentos, quando em contato com a mucosa bucal, podem desencadear
uma resposta imunológica alterada em certos pacientes, o
que provocaria o aparecimento da ulceração. Muitas
vezes os pacientes são alérgicos: têm aftas
quando ingerem certos alimentos.
As aftas são contagiosas?
Não, pois não se trata de doença infecciosa.
No entanto, há um traço familiar envolvido. Filhos
de pais portadores de aftas apresentam chances bem maiores de também
sofrerem com aftas.
Outras doenças podem parecer aftas?
Sim. O câncer de boca, ou carcinoma epidermóide, freqüentemente
começa como uma lesão ulcerada. Por isso, frente a
uma úlcera bucal que não cicatriza dentro de 15 dias,
o paciente deve procurar o cirurgião-dentista para o diagnóstico
da lesão. Além disso, algumas doenças infecciosas,
como o herpes, e algumas doenças dermatológicas com
ocorrência intrabucal, como o lúpus, embora tenham
características próprias bem conhecidas, em certas
fases de seu desenvolvimento podem parecer-se com aftas, principalmente
para o leigo.
Só agora, perto dos 50 anos de idade, comecei a
sofrer com aftas. Por quê?
Confirmado o diagnóstico (pois nem toda ferida na boca é
uma afta), será preciso investigar algum fato relevante na
história médica do indivíduo ou se houve alguma
modificação importante em seus hábitos de vida.
Um fator muitas vezes relacionado com essa história é
o abandono do hábito de fumar. O fumo provoca um espessamento
da mucosa bucal, que parece tornar-se mais resistente à penetração
de agentes desencadeadores da afta. Resta saber se vale correr o
risco de adquirir um câncer de boca ou pulmão para
se proteger das aftas.
Queimo minhas aftas com formol; há algum problema
nessa prática?
A aplicação de substâncias cáusticas,
como o formol, sobre as aftas destrói o tecido da região,
inclusive as terminações nervosas, o que faz desaparecer
a dor. Entretanto, o que se faz é substituir a afta por uma
queimadura química, que causa injúria a tecidos normais.
Além disso, há risco de maiores danos pela inadequada
manipulação dos produtos por parte dos usuários.
Não se recomenda tal prática.
Qual o melhor tratamento para as aftas?
Não existe tratamento que seja eficaz para todos os portadores
de aftas. Alguns têm uma lesão aftosa uma vez por ano;
outros apresentam lesões múltiplas diuturnamente.
As medicações de uso sistêmico, como os imunossupressores,
são mais efetivas na redução dos sintomas,
mas possuem efeitos colaterais indesejáveis, às vezes
graves, sendo, por isso, reservadas para os casos mais severos da
doença, exigindo o acompanhamento atento de um especialista.
Para os indivíduos com quadros clínicos mais leves,
a melhor abordagem é a aplicação tópica
de anti-sépticos, antiinflamatórios, anestésicos
ou protetores de mucosa, naturais ou sintéticos. O cirurgião-dentista
deve ser consultado para um adequado diagnóstico e orientação
terapêutica.
Orientações sugeridas por Marina H. C. G. de Magalhães,
Professora Doutora Assistente de Disciplina de Patologia da FOUSP,
e por Norberto Nobuo Sugaya, Professor Doutor da Disciplina de Semiologia
da FOUSP.
Artigo extraído da REVISTA DA APCD V. 53, Nº 6, NOV./DEZ.
1999
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